Conselhos: boa intenção, péssimo hábito | “you may give not”
Quem é que nunca pediu ou ofereceu um conselho, não é mesmo? Em nossas trocas e dinâmicas é muito comum compartilharmos nossa opinião diante das situações alheias.
Provoca, inclusive, uma certa animação quando alguém te procura para dizer: “- preciso de um conselho seu!”. Internamente podemos até pensar: “oba! taí uma bela chance de compartilhar toda a minha sabedoria e conhecimento sobre a vida”.
Mas, outras vezes, somos convidados apenas a ouvir uma situação e o conselho parece que “brota de dentro de nós” sem pedir licença e, quando percebemos, já estamos oferecendo uma opinião que não foi requisitada. É como se, diante de um desafio, ativássemos uma resposta padrão: preciso resolver essa situação!
É muito difícil aconselhar alguém sem julgar. Podemos julgar com a melhor intenção possível, mas ainda assim é um julgamento (do que achamos justo, do que é o melhor para aquela pessoa, do que consideramos o mais vantajoso ou zeloso). E, em regra, para julgar partimos das nossas experiências anteriores, do nosso passado, do que apreendemos ao longo de nossa história.
Como podemos ajudar alguém sem dar conselhos?
Ajudar alguém não significa resolver o problema ou entregar uma solução. Muitas vezes a melhor forma de ajudar alguém é oferecendo escuta, diálogo, ou simplesmente trazendo perguntas que ajudem a clarear uma situação.
Mesmo porque, aconselhar alguém pode nos levar para um lugar de superioridade, como se a nossa “sabedoria” ou experiência pessoal pudessem “salvar” a outra pessoa, ou facilmente resolver o seu problema. É muito comum simplificarmos o problema do outro e, consequentemente, oferecermos uma resolução superficial.
Acredito, assim, que precisamos ter atenção e desconstruir o nosso padrão automático de aconselhar as pessoas.
Após ouvir a situação ou o desafio de uma pessoa, uma simples checagem já pode ser o suficiente para entender se você deve aconselhar ou não: “-você quer ouvir o que eu penso sobre isso?” ou ”-você quer saber o que eu faria?”
A pessoa pode responder que: “-sim, por favor, preciso da sua opinião a respeito” Ou “-agora não, estou com a cabeça muito cheia, só precisava desabafar”, ou até mesmo “não, na verdade eu já sei o que eu preciso fazer.”
Sabendo que nosso conselho é requerido, podemos escolher melhor a forma de trazê-lo.
Existe uma diferença entre:
– “eu já vivi essa situação e o que você TEM que fazer é…”
[é impossível que você tenha vivido exatamente a mesma situação que a outra pessoa viveu, simplesmente porque se o protagonista muda, toda a história é diferente, seguido pelos coadjuvantes, roteiro, etc]
E, por outro lado:
– “eu experimentei algo muito parecido, não sei se cabe a você, mas o que eu fiz foi…. o que eu aprendi foi…”
[quando compartilhamos a nossa experiência e os nossos aprendizados, estamos cientes que eles podem ou não servir de inspiração para a outra pessoa]
Me lembro de um trecho da obra “Wear Sunscreen”, escrita por Mary Schmich e publicada no Chicago Tribune que ficou famosa na década de 90. Ela é antiga (e um pouco piegas), mas traz uma reflexão interessante sobre os conselhos:

Cuidado com os conselhos que comprar
Mas seja paciente com aqueles que os oferecem
Conselho é uma forma de nostalgia
Compartilhar conselhos é um jeito
De pescar o passado do lixo, esfregá-lo
Repintar as partes feias
E reciclar tudo por mais do que vale
[tradução livre]
Mas então conselhos são uma coisa ruim?
Não cabe aqui um juízo de valor a respeito da “bondade” ou “ruindade” do conselho.
Ele pode ser extremamente valioso para quem recebe. Muitas vezes receber uma perspectiva externa à uma situação com a qual estamos muito envolvidos nos ajuda a enxergar com outros olhos essa situação. Além disso, pode ser uma oportunidade, para aquele que aconselha, ressignificar experiências anteriores (às vezes não muito agradáveis) e sentir que, a partir delas (ou apesar delas), foi possível ajudar alguém. O conselho pode, então, ser benéfico para ambas as partes.
O que acredito que seja ruim é o hábito automatizado de oferecer conselhos. quando não abrimos nossa mente e nosso coração suficientemente para ouvir e sentir o que a outra pessoa de fato está precisando.
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De acordo com Charles Duhigg, os hábitos surgem porque o cérebro está o tempo todo procurando maneiras de poupar esforço. Se deixado por conta própria, o cérebro tentará transformar quase qualquer rotina num hábito, pois os hábitos permitem que nossas mentes desacelerem com mais frequência. Este instinto de poupar esforço é uma enorme vantagem. (…) Mas preservar o esforço mental é uma questão complicada, pois se nossos cérebros desligam no momento errado, talvez deixemos de notar algo importante.
Quando transformamos o ato de aconselhar em hábito podemos deixar de notar sentimentos e detalhes importantes de uma história, oferecendo uma presença e uma escuta de pouca qualidade. Se, automaticamente, “pulamos” para a resolução ou fixamos nossa mente em nossa experiência pessoal, ou em como resolveríamos aquela situação, não conseguimos oferecer o nosso “melhor conselho”.
É importante perceber que, em determinadas situações, ajudamos muito mais quando não oferecemos um caminho ou uma resposta, mas sim, uma escuta e perguntas genuínas.

E qual o meu conselho para tudo isso? rsrs
Antes de partir direto para o conselho, busque clarear mais a situação. Ofereça perguntas simples que ajudem a pessoa (e inclusive você) a compreender mais profundamente aquele contexto. Perguntas simples como: “- como você se sente?” “-Quais alternativas você enxerga para essa situação?”
Esteja presente, suspenda a voz do julgamento e busque acessar quais pensamentos e sentimentos emergiram em você enquanto escutava aquela pessoa. E quais você poderia compartilhar com ela.
Antes de dar um conselho, pense em algumas coisas:
- Escute profundamente o que a pessoa está te dizendo. Esteja atento a expressões, sentimentos, “as coisas não ditas” daquela história.
- Prefira ajudar a pessoa a construir uma caminho do que oferecer o caminho pronto. Existem maiores chances daquele conselho fazer sentido, se a pessoa for parte da sua elaboração.
- Se pergunte: Esse é um conselho que você daria a você mesmo? Você também coloca isso em prática na sua vida? Às vezes aconselhamos as pessoas a partir de um campo teórico interessante, mas pouco prático.
- Escolha bem as palavras. Se a pessoa te procurou provavelmente ela está numa posição vulnerável; por isso, tenha cuidado com a forma que você entrega os seus pensamentos e opiniões sobre a situação.
- Não espere que seu conselho seja seguido. Lembre-se de que você ofereceu o seu ponto de vista, está sugerindo uma atitude ou posicionamento, mas cabe à pessoa que recebe decidir seguir ou não.
Quando receber um conselho:
- Não absorva rapidamente: tome um tempo para processar e entender se aquelas sugestões realmente fazem sentido para você.
- Tenha abertura para ouvir e, quando for preciso, o discernimento necessário para desconsiderar.
- Mesmo que não vá segui-lo, busque compreender o que você pode aprender a partir daquele conselho.
As nossas experiências de vida, quando compartilhadas de um lugar de oferta e não de imposição, podem realmente ajudar a outra pessoa a resolver uma questão ou evitar desgastes em situações delicadas.
Eu já recebi conselhos maravilhosos, que realmente tiveram impactos positivos nas minhas decisões e sou muito grata às pessoas que me ofereceram tempo e presença. Por outro lado, já cai no hábito de dar conselhos que não me foram pedidos.
Acredito que aconselhar é um hábito social e, muitas vezes, isso passa pela expressão de amor e cuidado pelo outro, mas descobri que existem formas ainda mais cuidadosas de oferecer esse acolhimento.
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Marina Galvão (@marina__galvão) é Facilitadora e mestre em Direito Ambiental. Mineira de natureza, não dispensa um cafézin e um bom pão de queijo. Filósofa e pesquisadora livre, adora investigar as ciências da sociedade e as inter-relações humanas. Quando recebe a visita de inspirações, compartilha seus pensamentos por aqui.